segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Anedotas políticas que nunca levaram Santa Luzia a lugar nenhum

Santa Luzia, como inúmeras cidades brasileiras, não está isenta de ter a política permeada de anedotas e de ter suas lideranças identificadas por apelidos pitorescos como a “baraúna”, a “soda preta” ou o “biscoitão” . 

As campanhas já foram muito animadas porque, em meio a tensão da disputa pelo voto, as atividades também tinham seu lado lúdico. Os arrastões realizados no sábado de manhã na feira, os comícios com bons oradores, cantadores de viola que se apresentavam com motes que insultavam o candidato. Quem não se lembra das charangas?

Os mais jovens como eu não presenciaram períodos em que se arrastava troncos de baraúna pela cidade; em que se comia soda ou que se distribuía biscoito nas passeatas. A questão da subida da rampa do hospital que remonta ao tempo em que havia um prefeito chamado dr. Ney. A famosa passeata da mentira. A comparação dos arrastões e a contagem dos carros na carreata. Cada um desses elementos simbólicos indicava a filiação ideológico-partidária e isso é, de certa maneira, muito legítimo e inerente, é verdade, ao processo da campanha eleitoral.

As comemorações, praticamente quase todas feitas por um só agrupamento político que vem se renovando no poder há várias décadas, também acabaram marcando esse imaginário da política. Como as águas de 2012 foram turvas, não se ouviu tanto, mas recordo-me bem em outras eleições do carro de som do Fernando tocando bem alto a música “a gargalhada” de Nelson Gondim. O que mais me chocou foi uma passeata da vitória em que os partidários do vitorioso penduraram em um jumento grandes mantas de carne de sol escorrendo sangue para chatear o derrotado que era cirurgião plástico dos mais renomados e queridos que Santa Luzia já teve. 

Tudo isso faz parte do que eu chamo “anedota política” para não usar o termo folclore. Algumas dessas anedotas, além de serem indicadoras da disputa, eram e ainda são expressão de desigualdade e algum tom de violência ainda que simbólica como diria o Bourideu. Tais anedotas não levam Santa Luzia a lugar nenhum. 

O primeiro exemplo é a história de ser do cordão. Esse termo vem do pastoril que é um folguedo popular no qual se encena o nascimento de Jesus Cristo. Formam-se dois cordões, um azul e outro encarnado (vermelho), e dança-se batendo em panderolas com fitas nas citadas cores. A conversa é longa, mas basta resumir dizendo que isso se transpôs para política e significa que dependendo do cordão que você escolhe ou você é situação ou oposição. E, graças a essa anedota do cordão, é que tem gente que não faz compras na loja do fulano que é do cordão tal, ou não pode falar com sicrano do cordão oposto ou alguém atende com má vontade e sem educação beltrano pelo fato de ser do outro cordão ou a comadre já vai falar com o compadre pensando que ele vai atender mal por causa da divergência. Isso acaba, a meu juízo, sendo uma forma de impor a submissão de um grupo a outro e segregar as pessoas em dois grandes grupos: os incluídos e os excluídos. 

Outra ainda pior: “você vai pra bomba”! “Não vote em fulano senão você vai pra bomba!”... Na prática, não significa que votar em determinado partido vai resultar em derrota eleitoral, mas no transtorno de, além da derrota, ter de suportar alguém soltando fogos de artifício ou mesmo bombas em sua porta. Não podia deixar de encerrar com a anedota mais tosca (infelizmente, não terei como esconder o remetente): a faixa colocada em praça pública saudando o rei do Vale. O Vale do Sabugi já foi monarquia (na cabeça de quem mandou fazer a faixa).

Minha conclusão: esses elementos cômicos não vão desaparecer totalmente. Mas, o problema é fazer da política uma brincadeira. Acho que décadas vividas sob esse esquema de pensamento nos tiraram o direito de olhar o que existe além do muro. Temos perdido a chance de contemplar o horizonte e perceber que o nosso potencial é de sermos muito mais do ponto de vista do emprego, da educação, da cultura, do lazer, do meio ambiente etc. Não escrevo isso para dizer que A é melhor que B. Mas é que os tempos atuais exigem muito mais que uma anedota convincente...É como penso.
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