quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Sua bisavó foi pega a dente de cachorro? Presença indígena na história de Santa Luzia

Rommeryto em aula de Campo na Cacimba da Velha
Não foi de poucas pessoas que ouvi a expressão: “minha bisavó foi pega a dente de cachorro”. Se trata de mais uma das características que fazem parte da memória coletiva ou do imaginário do povo de Santa Luzia. Essa expressão, assim como palavras como Yayu, Tapuio, Quipauá são evidências de um passado marcado pela existência de nações indígenas no território que hoje é o nosso município.

O historiador santaluziense Rommeryto Augusto fez um brilhante estudo que teve como objetivo: “identificar a ocorrência de povoamento indígena na região conhecida como Vale do Sabugy no período do pós-contato (séculos XVII e XVIII), e sua participação na história e na sociedade destas terras cortadas pelos rios Sabugy e Capauá após a interiorização da colonização” (MORAIS, 2011:9). Segundo o autor, a inquietação sobre a existência de povos indígenas em Santa Luzia vem desde a sua infância e perpassou o tempo tornando-se o objeto de seu trabalho de conslusão da graduação em história que foi aprovado com louvor.

Sítio Cacimba da Velha: Pedra na qual se fabricava artefatos
O estudo de Rommeryto recupera toda uma literatura sobre a história indígena na Paraíba na qual se registra que exisitiram, aproximadamente, 16 (dezesseis) grupos indígenas ao longo de todo território paraibano: Ariús, Bultris, Canindés, Cariris, Carnoiós, Coremas, Fagundes, Icós, Janduís, Panatis, Palacus, Pegas, Potiguaras, Tabajaras, Trarairus e Tupis. Os Potiguara e os Tabajara ainda existem e tem o seu território reconhecido no litoral paraibano. Os Potiguara, por exemplo, são um povo que, atualmente, conta como mais de dez mil índios. A nação dos Trarairús ocupou todo o centro-norte do território da Paraíba o que inclui o Vale do Sabugi.

A expansão do colonizador pelo interior do território da atual Paraíba, em busca de lugares viáveis para formação das fazendas de gado, foi um processo violento que acabou eliminando muitos índios em batalhas sangrentas – uma delas conhecida como a Guerra dos Bárbaros. De acordo como Morais (2011) “a malha de rios que forma a bacia hidrográfica do Rio Piranhas-Açu seria o referencial para que os portugueses fizessem contato com os indígenas tapuias, das nações cariri e tarairiú, incluindo-se, portanto, o Sabugy, cortado pelo rio homônimo e o Capauá”. Em 1680, o colonizador instaura sua empreitada de ocupação do território paraibano e, segundo o autor “os momentos de grande matança e carnificina ocorreram em 1687, quando há uma resistência violenta dos tarairiú no sertão da Parahyba”.

A monografia de Rommeryto nos ajuda a compreender que a história das mulheres “pegas a dente de cachorro” ou a “casco de cavalo” refere-se a este processo, não pacífico, de dominação das populações indígenas e sua incorporação à vida do colono. A lenda que explica o nome dado ao Pico do Yayu é apontada pelo pesquisador como uma possibildiade de exemplo dos conflitos entre os indígenas e os caçadores (que representavam a presença do colonizador). Segundo esta lenda, uma índia, teria sido encontrada afastada de sua tribo, provavelmente à procura de água ou perdida e, sendo vista pelos vaqueiros ou caçadores foi perseguida, inclusive com cães, até a sua exaustão física. Quando foi cercada ela teria apontado para o Pico e pronunciado as sílabas YAYU e vindo a morrer. Essa palavra poderia significar Ali Deus, Valha-me Deus ou ali está Deus.

Na família Ferreira Neves teria acontecido uma relação entre o europeu e uma índia que daria origem ao tronco das famílias de Santa Luzia. Pedro Ferreira Neves (Pedro Velho), irmão de Geraldo Ferreira Neves, teve  o segundo casamento com Custódia de Amorim Valcácer, filha de Pedro Valcácer que era Chefe da tribo do Povo Cariri. Esse matrimônio teria acontecido no Vale do Rio Paraíba na aldeia onde Valcácer era chefe. A convite do filho do primeiro casamento Geraldo Ferreira Neves Sobrinho, Pedro Velho e Custódia  teriam  se estabelecido nas terras onde hoje é Santa Luzia.

Teriam acontecido outras uniões decorentes da vinda desta casal à Santa Luzia. Uma irmã de Custódia teria contraído matrimônio com José Tavares da Costa dando origem às famílias de Várzea. Uma neta de Custódia de nome Antonia de Morais Valcácia Filha casou-se com o português Sebastião de Medeiros dando origem à parte da família Medeiros. Depois de fazer o complexo levantamento destas relações, Morais (2011) conclui que:


“Para além desse lado mítico, ambos os autores (Alcindo Leite e Trajano Nóbrega) [...] cuidam em apresentar aquilo que já vimos anteriormente: Pedro Velho e Custódia são o tronco de famílias da região do Sabugy. Portanto, o tronco genealógico dessas famílias passa por uma indígena, que, aos moldes do século XVIII, uniu-se a um colono, tendo se estabelecido na região do Sabugy.” (MORAIS 2011:86)


Além da lenda do Yayu que expressa o imaginário sobre a presença indígena em Santa Luzia, outros vestígios são encontrados e são relatados por Morais(2011). Os sítios Tapuio, Pedra do Sino, Passagem do Meio e Cacimba da Velha apresentam elementos que indicam a existência passada de índios. São inscrições rupestres e pedras nas quais os índios fabricavam artefatos que são chamadas de oficinas. O trabalho de Morais(2011) , portanto, colabora muito para o esclarecimento de uma parte da história de Santa Luzia que ainda não é bem conhecida por muitos dos seus filhos.

Estas muitas mulheres “pegas a dentes de cachorro” ou essas “caboclas bravas” que povoam o imaginário são, na verdade, as habitantes primeiras do nosso território,em geral, membras do povo Trarairú ou Cariri e que foram “incorpordas” à vida do colonizador a partir de um violento processo de colonização.

Recomendo, portanto, a todos a leitura da monografia do Rommeryto que é um importante documento que registra, resume e analisa a história de nossa querida Santa Luzia sob um ponto de vista autêntico e aprofundado. Esclareço que não contei um terço das informações apesentadas neste trabalho, mas tentei mostrar como é rica  a nossa história e como foi importante este trabalho do nosso conterrâneo.

REFERÊNCIA
Morais, Rommeryto Augusto Oliveira de. Os indígenas do Sabugy no período do pós-contato/Rommeryto Augusto Oliveira de Morais. – Guarabira. Universidade Estadual da Paraíba. 2011.



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